Finanças

101 milhões de brasileiros vivem o crédito como "complemento de renda"

Em março, o Brasil chegou à marca de 101 milhões de pessoas com dívidas no cartão de crédito.

Em março, o Brasil chegou à marca de 101 milhões de pessoas com dívidas no cartão de crédito. O número expõe uma realidade incômoda: o cartão, criado para facilitar pagamentos, virou item fundamental na vida das famílias.

O problema principal não é o acesso ao crédito, mas a dependência dele. Hoje, 67% dos brasileiros possuem dívidas e mais de 81 milhões já estão inadimplentes. O endividamento está vulnerabilizando as famílias – um cenário comum quando se paga um cartão com o limite de outro ou se abusa do consignado para cobrir despesas correntes.

O rotativo virou armadilha

O uso recorrente do crédito rotativo, modalidade das mais caras do país, cria um ciclo de endividamento no qual o consumidor passa a pagar juros sobre juros. Rolar a dívida apenas amplia a fragilidade financeira e torna a quitação um objetivo cada vez mais distante.

Frente a outras economias, essa realidade é ainda mais dura. Na zona do euro, o crédito ao consumidor é amplamente utilizado, mas dentro de um ambiente regulatório mais estável e com custos financeiros menores.

A realidade europeia

Volume do mercado - Segundo o Banco Central Europeu, o volume de crédito  na região atingiu mais de 828 bilhões de euros em 2026, refletindo um mercado ativo e previsível (Trading Economics).

Inadimplência baixa - Estudos mostram que a proporção de consumidores em atraso costuma variar entre 2% e 11%, dependendo do país e da condição econômica. O número é muito inferior ao do Brasil (ResearchGate).

Mais estabilidade, menos risco - Na Alemanha e França, o nível tende a ser mais baixo ainda devido à estabilidade de renda, juros reduzidos e políticas rigorosas de crédito.

Resiliência da economia - Outro aspecto importante é que os níveis de inadimplência permanecem controlados mesmo em cenários de pressão econômica, demonstrando resiliência do sistema financeiro e o menor risco associado ao crédito para consumo (S & P Global).

Essa comparação mostra que no Brasil a diferença não está apenas na quantidade de crédito disponível, mas na sua qualidade e no seu custo. Aqui, o crédito é frequentemente complemento de renda e usado para financiar despesas de sobrevivência.

Remédio amargo, mas eficaz

O uso responsável do crédito envolve educação financeira e compreensão dos custos envolvidos. Para quem já está em situação de alto comprometimento financeiro, medidas mais firmes são necessárias.

Uma delas é a abstinência total de crédito por um período determinado. Essa estratégia consiste em aposentar o cartão de crédito e as linhas de financiamento, passando a operar exclusivamente com os recursos disponíveis.

Parece radical, mas aqui cabe uma analogia com a dependência química em que, muitas vezes, a interrupção total do consumo é a forma mais eficaz de recuperação.

Ao cortar o crédito, força-se a reorganização imediata do padrão de consumo, ajustando-o à sua capacidade real de pagamento. Esse processo pode ser difícil no curto prazo, mas tende a gerar ganhos significativos ao reduzir o peso dos juros e permitir a reconstrução gradual da saúde financeira.

Escolhas difíceis, mas definitivas

Se você está vivendo este momento, fica o alerta para reduzir os gastos, por mais que seja uma prática dura e, aos seus olhos, impossível. Escolhas duras serão necessárias para solucionar momentos delicados – o que pode significar abrir mão de serviços considerados até então essenciais. É um caminho árduo, mas não é impossível.

Você acredita que o sistema de crédito brasileiro estimula esse tipo de comportamento ou falta educação financeira?

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