Finanças
Quem paga a conta: o sacrifício fiscal do brasileiro para sustentar bets, influenciadores e a máquina pública

Todo mês, o empresário brasileiro fecha a folha, paga impostos e olha para o caixa para descobrir quanto sobrou. A pergunta que raramente fazemos é: para onde vai esse dinheiro e contra quem estamos competindo pelo mesmo consumidor?
O Brasil tem uma das maiores cargas tributárias da América Latina. A arrecadação equivale a cerca de um terço do PIB e uma parte significativa dos recursos públicos financia a estrutura do Estado, incluindo a folha dos três Poderes.
No Judiciário e no Ministério Público, os chamados penduricalhos ajudam a explicar o fato de que há remunerações acima do teto constitucional. Levantamentos do Tribunal de Contas da União mostram a dimensão desse problema. Como observa o pesquisador Rafael Rodrigues Viegas, da Fundação Getúlio Vargas, o dinheiro destinado a supersalários deixa de ser utilizado em outras áreas. No fim, alguém precisa pagar essa conta.
Em paralelo a isso, uma parte da renda dos brasileiros mudou de destino. As apostas esportivas on-line ganharam espaço e passaram a disputar o dinheiro que antes poderia ser usado no comércio, nos serviços e no consumo cotidiano.

O problema se agrava quando falamos do mercado ilegal. A Operação Conto da Sorte, da Receita Federal, identificou 37 empresas de apostas que estavam operando sem autorização, com movimentação estimada em R$60 bilhões. Essas operações não seguem as mesmas regras de fiscalização e não recolhem os tributos previstos para o mercado regular.
O impacto chega ao comércio local. Em um orçamento apertado, o dinheiro gasto com apostas é o que deixa de ser utilizado em outras atividades. Para quem mantém uma loja, um restaurante ou uma pequena empresa, essa mudança no consumo faz muita diferença.
A publicidade também mudou. Parte do investimento que antes chegava aos veículos tradicionais e às pequenas agências hoje vai diretamente para influenciadores digitais. Muitos trabalham de forma regular, mas ainda existe uma parcela de rendimentos difícil de fiscalizar, principalmente quando os pagamentos vêm de plataformas estrangeiras.
É aí que aparece uma distorção difícil de ignorar. A empresa formal precisa emitir nota, recolher impostos e cumprir uma série de obrigações para funcionar. Ao mesmo tempo, disputa clientes com atividades ilegais ou pouco fiscalizadas e ainda precisa financiar uma máquina pública que custa caro.
Fiscalizar as bets ilegais e os rendimentos digitais é necessário. Mas não basta. Também precisamos discutir o custo do Estado e a forma como o dinheiro arrecadado é utilizado.
Nesse modelo atual, a conta sempre vai chegar para quem produz, emprega e paga impostos. O mínimo que podemos exigir é saber quanto estamos pagando, para onde esse dinheiro está indo e se as regras valem para todos.